Plataformas digitais se tornam principal fonte de informação no Brasil, aponta pesquisa do Cetic.br

Redes sociais, vídeos curtos e aplicativos de mensagens já superam rádio e televisão como meios mais utilizados para acesso a notícias; estudo também revela desafios ligados à confiança, verificação e letramento digital.

As plataformas da Internet se consolidaram como o principal meio de acesso à informação entre brasileiros com 16 anos ou mais, superando veículos tradicionais como rádio e televisão. É o que revela a pesquisa inédita Painel TIC – Integridade da Informação, lançada nesta sexta-feira (10) pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), em parceria com o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

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Realizado com 5.250 usuários de Internet entre agosto e setembro de 2025, o estudo mostra que 72% dos entrevistados acessam informações diariamente por meio de redes sociais. Dentro desse universo, os feeds de vídeos curtos aparecem como o recurso mais utilizado (53%), seguidos por sites ou aplicativos de vídeo (50%) e feeds de notícias (46%). Os aplicativos de mensagens também ocupam papel central: 60% dos usuários afirmam se informar diariamente por essas ferramentas.

Já os meios tradicionais aparecem em posição secundária. Rádio e televisão — incluindo telejornais, canais de notícias 24 horas e rádios AM e FM — são citados por 58% dos usuários como fontes diárias de informação, enquanto jornais e revistas, em versões impressas ou digitais, são mencionados por 34%.

O acesso às informações digitais, no entanto, não é homogêneo e reflete desigualdades socioeconômicas. Usuários das classes AB, com ensino superior e que acessam a Internet tanto pelo celular quanto pelo computador, apresentam maior frequência de consumo informacional. Entre esses grupos, 58% acessam diariamente sites ou portais de notícias, percentual que cai para 33% na classe C e 27% nas classes DE.

Apesar da predominância das plataformas digitais, a pesquisa aponta que 65% dos usuários consomem diariamente conteúdos jornalísticos produzidos por veículos de imprensa. Essa proporção, porém, é significativamente menor entre os mais jovens: apenas 46% dos usuários de 16 a 24 anos mantêm esse hábito.

Para Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br – NIC.br, o levantamento contribui para compreender um tema central do debate contemporâneo. “A agenda de integridade da informação vem ganhando espaço internacionalmente, especialmente no enfrentamento à desinformação. A pesquisa busca mapear como os brasileiros acessam, verificam e percebem informações no ambiente digital”, afirma.

Desconfiança crescente e desinteresse pela verificação

Um dos achados mais relevantes do estudo é o alto grau de desconfiança em relação às informações circulantes. Quase metade dos entrevistados afirma desconfiar sempre ou na maioria das vezes de conteúdos publicados por veículos de notícias tradicionais (48%), canais ou perfis em plataformas de vídeo (47%) e influenciadores ou figuras públicas em redes sociais (43%).

A desconfiança em relação à imprensa tradicional é maior entre homens (52%) e pessoas com apenas o Ensino Fundamental (59%). Já os influenciadores geram mais desconfiança entre usuários com 60 anos ou mais, grupo em que 51% demonstram ceticismo em relação a esse tipo de fonte.

Além disso, há sinais claros de desengajamento com a checagem de informações. Cerca de 34% dos usuários concordam total ou parcialmente que “não vale a pena pesquisar” se as informações recebidas são verdadeiras ou falsas, enquanto 30% afirmam não ter interesse nesse tipo de verificação. Esse comportamento é mais comum entre jovens do sexo masculino, das classes C e DE e com menor escolaridade, e está associado a maiores dificuldades em identificar conteúdos falsos ou enganosos.

Segundo Fabio Senne, coordenador geral de pesquisas do Cetic.br, os dados reforçam tendências observadas em outros estudos. “Há uma diminuição do engajamento com notícias e com mídias tradicionais, especialmente entre os mais jovens, o que merece atenção das políticas públicas”, avalia.

Algoritmos, monetização e inteligência artificial

O levantamento também evidencia lacunas no entendimento sobre o funcionamento das plataformas digitais. Metade dos entrevistados acredita que conteúdos circulam mais porque são confiáveis, e 45% pensam que todas as pessoas encontram as mesmas informações ao fazer buscas na Internet, indicando desconhecimento sobre algoritmos e personalização.

Por outro lado, há maior compreensão sobre as lógicas econômicas desses ambientes. Para 64% dos usuários, influenciadores recorrem à polêmica para ganhar visibilidade, e 61% reconhecem que as redes sociais são gratuitas porque lucram com publicidade.

A pesquisa também abordou o impacto das tecnologias emergentes. Cerca de 41% dos usuários afirmam ter contato diário com deepfakes — conteúdos manipulados por IA para parecerem reais —, percentual que chega a 44% entre jovens de 16 a 24 anos. O desconhecimento sobre o tema é maior entre pessoas das classes DE e com menor escolaridade.

Quanto às ferramentas de inteligência artificial generativa, 47% dos entrevistados afirmam já ter utilizado recursos como o ChatGPT. Entre usuários que acessam a Internet apenas pelo celular, a IA integrada ao WhatsApp aparece como a mais utilizada.

Para Renata Mielli, coordenadora do CGI.br, os dados reforçam a importância de políticas públicas baseadas em evidências. “A consolidação da agenda de integridade da informação exige respostas estruturadas aos desafios da manipulação informacional, considerando as desigualdades e especificidades da realidade brasileira”, conclui.

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Por Fernando Moura, em São Paulo