Estudo alerta que um mercado de conteúdo com IA falho está acelerando a “canibalização de conteúdo”
Estudo inédito aponta falhas estruturais no mercado de licenciamento e defende regulação urgente para evitar colapso na produção de conteúdo de qualidade.
Um novo relatório do Open Markets Institute faz um alerta direto à indústria de tecnologia: os sistemas de inteligência artificial estão “consumindo” o conteúdo humano do qual dependem — e podem comprometer sua própria qualidade e sustentabilidade se o modelo atual não for reformado.

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Intitulado “Same Gatekeepers, New Tollbooths: Mapping the AI Content Licensing Market”, o estudo, assinado por Courtney Radsch e Karina Montoya, é a primeira análise abrangente sobre como empresas de IA obtêm, valorizam e remuneram conteúdos jornalísticos e criativos usados no treinamento e operação de seus sistemas.
Segundo o relatório, o avanço da IA já está provocando queda significativa de tráfego em sites de notícias, reduzindo receitas e ampliando demissões no setor. Ao mesmo tempo, os mecanismos atuais de compensação — baseados em disputas de copyright, acordos pontuais e compromissos voluntários — repetem falhas já vistas na era das redes sociais e buscadores.
“O risco é uma ‘degradação progressiva’ da própria IA”, afirma o estudo, ao destacar que a redução da produção de conteúdo humano de qualidade pode comprometer diretamente a inteligência e a confiabilidade dos sistemas automatizados.
Dependência crítica e risco sistêmico
Para Courtney Radsch, há uma relação estrutural delicada: a IA depende de conteúdo humano contínuo para manter sua qualidade. Sem isso, o ecossistema entra em colapso.
O relatório descreve esse cenário como uma “armadilha dupla”: grandes empresas de tecnologia, responsáveis pela queda de audiência dos veículos, também estão passando a controlar o mercado emergente de licenciamento de conteúdo — concentrando poder e limitando a concorrência. Dados levantados indicam que o uso de bots de IA ignorando restrições de acesso cresceu rapidamente, saltando de 3,3% para 12,9% em apenas seis meses, agravando a perda de controle dos produtores de conteúdo.
Mercado desigual e concentrado
O estudo mapeia um mercado de licenciamento dividido em três camadas:
- Grandes acordos entre empresas de IA e grandes grupos de mídia
- Plataformas intermediárias emergentes, incluindo startups e Big Tech
- A maioria dos produtores de conteúdo, que permanece sem qualquer compensação
Esse modelo, segundo os autores, tende a ampliar desigualdades e excluir veículos menores, regionais e independentes.
Propostas para evitar colapso
Para evitar uma crise estrutural no jornalismo e no ecossistema digital, o relatório propõe um conjunto de medidas regulatórias e de mercado: Criação de sistemas obrigatórios de licenciamento com remuneração padronizada; Negociação coletiva para fortalecer o poder de pequenos e médios veículos; Maior transparência nos acordos e uso de dados; Sistemas técnicos que permitam rastrear e remunerar o uso de conteúdo nas respostas de IA; Inclusão de mídias locais e independentes no modelo econômico; e Janela de ação está se fechando
O estudo conclui que o tempo para corrigir essas distorções é limitado. Sem intervenção, o mercado tende a consolidar estruturas que favorecem grandes plataformas, enfraquecem o jornalismo e comprometem a própria evolução da inteligência artificial.
O alerta do Open Markets Institute reforça que, sem um modelo sustentável e equilibrado, a IA corre o risco de se tornar um sistema parasitário — dependente de um conteúdo que ela mesma ajuda a inviabilizar.
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Por Fernando Moura, em São Paulo