Philippe Aghion analisa impacto da inteligência artificial sobre produtividade, concorrência e organização do trabalho
Revista da SET participa de evento em Barcelona onde o prêmio Nobel de economia destaca papel da educação, políticas de concorrência e proteção social em cenário de transformação econômica impulsionada por IA.
O economista , prêmio Nobel de Economia 2025 e referência na teoria da destruição criativa, apresentou uma análise sobre os efeitos da inteligência artificial (IA) na economia durante a abertura do ciclo “Barcelona IA: innovación, productividad y bienestar”, promovido pela Iniciativa para a Produtividade e a Inovação (IPI), vinculada ao Cercle d’Economia, em parceria com o Barcelona Supercomputing Center (BSC). O ciclo tem como objetivo posicionar Barcelona no debate global sobre os impactos econômicos e sociais da IA.

Philippe Aghion/ Foto: Divulgação
Na exposição, Aghion caracterizou a inteligência artificial como uma nova revolução industrial, associando seu impacto ao conceito de destruição criativa desenvolvido por Joseph Schumpeter, segundo o qual o crescimento de longo prazo decorre da substituição contínua de tecnologias e modelos produtivos. Nesse contexto, a inovação surge a partir de investimentos em pesquisa e desenvolvimento realizados por empresas e empreendedores, motivados por expectativas de retorno financeiro.
Durante o debate com Xavier Vives, presidente do Conselho Assessor do IPI, o economista destacou que, na era da IA, competências básicas permanecem centrais. Segundo ele, compreensão de leitura, capacidade de expressão escrita e domínio de matemática seguem como fundamentos estruturais do capital humano. “Precisamos de outra revolução industrial”, afirmou Aghion, ao defender que os avanços tecnológicos devem ser acompanhados de sistemas educacionais robustos e de mecanismos de proteção social que conciliem flexibilidade empresarial com segurança para os trabalhadores em períodos de transição.
Aghion estima que a inteligência artificial poderá contribuir com um aumento de 0,68 ponto percentual ao ano na produtividade das empresas ao longo de uma década. Ao mesmo tempo, reconhece efeitos de curto prazo sobre o emprego. “La inteligencia artificial supondrá una gran reorganización del empleo”, antecipou. Segundo sua análise, a adoção da tecnologia tende a provocar inicialmente a substituição de postos de trabalho, exigindo políticas ativas de requalificação profissional, maior flexibilidade nas relações de trabalho e fortalecimento dos sistemas de proteção social.
O economista argumenta que o impacto da IA ocorre por dois mecanismos principais. O primeiro está relacionado à automação de tarefas, com redução de custos operacionais e aumento de eficiência produtiva. O segundo mecanismo envolve a aceleração da geração de novas ideias, uma vez que sistemas de IA permitem identificar combinações de conhecimento e soluções de forma mais rápida, ampliando a capacidade de inovação econômica.
- Philippe Aghion
- Fotos: Fernando Lopez Cisneros
No campo da concorrência, Aghion observa que o estímulo à inovação depende de condições de mercado que favoreçam a entrada de novos agentes. Segundo ele, empresas estabelecidas tendem a adotar estratégias para preservar suas posições, o que pode limitar o dinamismo econômico. Suas pesquisas indicam que empresas próximas da fronteira tecnológica respondem à concorrência com maior intensidade inovadora, enquanto organizações menos avançadas podem ser desestimuladas.
A análise inclui também a experiência recente dos Estados Unidos, onde a Revolução da Tecnologia da Informação impulsionou ganhos de produtividade entre meados da década de 1990 e os anos 2000. Empresas como Google, Microsoft e Walmart destacaram-se nesse processo, mas o cenário também resultou em aumento da concentração de mercado, dificultando a entrada de novos competidores e contribuindo para a desaceleração posterior da produtividade.
No caso europeu, Aghion destaca perda de dinamismo a partir dos anos 1990, associada à dificuldade em capturar plenamente os benefícios da revolução digital. Dados apontam redução da participação da Europa em patentes de alta tecnologia, enquanto os Estados Unidos mantêm a liderança e a China expande sua presença. Nesse contexto, a inteligência artificial é considerada uma possível oportunidade para recuperação da competitividade.

Philippe Aghion: Foto: Fernando Lopez Cisneros
Apesar de adotar uma postura descrita como “cautelosamente otimista”, o economista identifica desafios estruturais. O primeiro envolve a formação de capital humano, com necessidade de investimento em educação básica e superior. O segundo diz respeito à concentração de mercado em infraestrutura tecnológica, especialmente em serviços de nuvem e capacidade computacional, atualmente dominados por grandes empresas globais.
Para enfrentar esses desafios, Aghion defende políticas que ampliem o acesso a dados, incentivem padrões abertos e reduzam barreiras à entrada. Também alerta para os riscos de excessiva regulação, que pode limitar a inovação. Paralelamente, propõe o fortalecimento de uma política industrial voltada ao desenvolvimento de infraestrutura computacional, centros de pesquisa e difusão tecnológica.
Em relação ao mercado de trabalho, o economista rejeita previsões de desemprego estrutural em larga escala, argumentando que a IA tende a substituir tarefas específicas, e não ocupações completas. Estudos citados em sua análise indicam que empresas que adotaram tecnologias de IA registraram ganhos de produtividade e, em diversos casos, expansão do emprego, ainda que funções administrativas estejam mais expostas à automação.
A transição, no entanto, demanda instrumentos de adaptação. Aghion menciona modelos de “flexigurança”, como o dinamarquês, que combinam apoio financeiro aos trabalhadores desempregados com programas de requalificação. Nesse cenário, além de competências técnicas, habilidades interpessoais — como comunicação, trabalho em equipe e capacidade de adaptação — tornam-se complementares às tecnologias digitais.
A avaliação final indica que o impacto da inteligência artificial dependerá do desenho das políticas públicas e das estratégias empresariais. Segundo o economista, sistemas educacionais eficientes, políticas de concorrência adequadas, investimentos em inovação e mecanismos de inclusão social são determinantes para que os ganhos de produtividade sejam distribuídos de forma ampla. Sem essas condições, os benefícios tendem a se concentrar, ampliando desigualdades e reduzindo o potencial de crescimento econômico sustentado.
Desafios para a adoção da IA segundo Aghion:
- Formação de capital humano, com foco em educação básica e superior de qualidade;
- Manutenção e desenvolvimento de competências fundamentais (leitura, escrita e matemática);
- Risco de concentração de mercado em infraestrutura tecnológica e serviços de nuvem;
- Barreiras à entrada de novos competidores no ecossistema de IA;
- Necessidade de políticas de concorrência eficazes;
- Equilíbrio regulatório, evitando excesso de regulação que possa inibir inovação;
- Ampliação do acesso a dados e promoção de padrões abertos;
- Investimentos em infraestrutura computacional e centros de pesquisa;
- Implementação de políticas industriais voltadas à inovação;
- Adaptação do mercado de trabalho, com programas de requalificação profissional;
- Estruturação de sistemas de proteção social durante transições ocupacionais
Por Fernando Lopez Cisneros em Barcelona e Fernando Moura, em São Paulo

