Comunicação pública com IA: do laboratório à grade de programação

SET Expo destaca projetos pioneiros de universidades e TVs públicas que integram tecnologia, cultura e educação

A inteligência artificial já é uma realidade nos bastidores — e agora, cada vez mais, nas telas e ondas das mídias públicas. Essa transformação foi tema central do painel “Entre Bots e Boas Práticas: Comunicação Pública com Inteligência Artificial”, realizado no terceiro dia do SET Expo 2025. Reunindo especialistas de universidades, TVs legislativas e centros de pesquisa, o debate trouxe exemplos práticos de como a IA está sendo incorporada à comunicação institucional de forma ética, estratégica e inclusiva.

Mediado por Kellyanne Alves, professora e pesquisadora do DECOM/CCTA/UFPB, o painel teve como foco as oportunidades e os desafios da IA na promoção da cidadania digital, inclusão e transparência. A discussão envolveu a aplicação de tecnologias como chatbots, personalização de conteúdo e automatização editorial — com atenção especial ao papel das emissoras públicas na era da TV 3.0.

A diretora-geral da Fundação Paulo Jackson (TV ALBA e Rádio ALBA), Michele Gramacho, apresentou o case da IALBA, plataforma de inteligência artificial criada em 2024 que revolucionou a produção de conteúdo na emissora legislativa da Bahia. Segundo ela, a implementação da IALBA expandiu significativamente a grade de programação: “Saltamos de 8 para 25 programas com o apoio dessa tecnologia”, destacou.

O destaque ficou por conta do IALBA News, telejornal criado com o auxílio da IA, que conta com um produtor e uma editora de imagem, e funciona com base em roteiros e dados inseridos diretamente na plataforma. A apresentadora virtual IALBA passou recentemente por uma atualização com o uso da tecnologia da plataforma Hedra, tornando sua aparência mais moderna e realista.

TV Cultura e o caminho para a TV 3.0

Nelson Faria Junior, diretor técnico da TV Cultura, apresentou as iniciativas da emissora voltadas à transição para a chamada TV 3.0. Segundo ele, a missão da TV pública permanece a mesma — ampliar o alcance educativo e cultural —, mas a IA surge como ferramenta fundamental para aprimorar a personalização, acessibilidade e eficiência dos conteúdos.

“Já vemos emissoras no exterior utilizando IA para tradução automática, combate à desinformação e conteúdos acessíveis. O Brasil ainda está atrasado nesse cenário”, alertou. Na TV Cultura, projetos como análise de acervo automatizada, sugestão de pautas, monitoramento de audiência e personalização de conteúdo para diferentes perfis estão em fase de desenvolvimento.

Entre os próximos passos, está a adoção de tecnologias para captação, finalização e exibição em 4K, uso de algoritmos em nuvem e armazenamento escalável — pilares da futura TV 3.0. Nelson também citou como referência as práticas da TV Câmara e TV Senado no uso de IA.

Com uma abordagem mais conceitual, Almir Almas, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, trouxe reflexões sobre o uso da inteligência artificial na produção audiovisual e no ensino da arte. Ele questionou como os cursos de cinema e audiovisual estão se adaptando à presença crescente da IA e defendeu a criação de novas linguagens e formatos narrativos.

“Produzir com IA é mais do que automatizar: é repensar toda a experiência estética e de linguagem com o usuário”, afirmou. Almas apresentou projetos como o COIL, desenvolvido com a Universidade de Oxford, que propõe um jornalismo imersivo em 360 graus, e a recriação da voz da dona Maurinete Lima – socióloga, escritora e uma das fundadoras da Frente 3 de Fevereiro, uma experiência de inteligência ancestral exibida na Bienal de São Paulo em 2024.

Neste ano, o laboratório da USP também desenvolveu um experimento com IA para gerar poesia em Haikai. A iniciativa demonstrou a necessidade de treinar a IA não apenas tecnicamente, mas também em aspectos culturais e linguísticos, como a métrica poética japonesa.