Tecnologia, regionalização e parcerias impulsionam a entrega de conteúdo no Brasil profundo

Acesso à TV digital, soluções híbridas e uso estratégico de satélites e CDNs foram debatidos em painel do SET Expo 2025

No terceiro dia do SET Expo 2025, a Sala 4 abriu os trabalhos às 10h com um painel que refletiu sobre os desafios e as soluções para levar conteúdo audiovisual de alta qualidade ao chamado “Brasil profundo” — regiões afastadas dos grandes centros urbanos, onde limitações técnicas e econômicas ainda dificultam o acesso a vídeos em HD, 4K ou formatos interativos. A discussão foi mediada por Alexandre Vila, do Grupo Bandeirantes, e reuniu representantes da Claro, AWS, Globo e Speedcast.

Guilherme Saraiva, da Claro Empresas, destacou o avanço da TVRO (TV via satélite de banda Ku) como uma das soluções mais robustas para a cobertura nacional. Segundo ele, mais de 5 milhões de kits já foram distribuídos em programas governamentais, com penetração significativa no Nordeste e Norte, onde a TVRO chega a 40% dos lares com TV. O executivo também chamou atenção para o movimento de microrregionalização do conteúdo, com emissoras como Globo e SBT subdividindo seus estados de cobertura e criando programações locais para pequenas cidades. Em Ariquemes (RO), por exemplo, uma afiliada da Globo opera com apenas dois profissionais e sem sede física, um modelo que viabiliza o jornalismo local em regiões de difícil acesso.

A CDN (Content Delivery Network) proprietária da Globo foi apresentada por Rodrigo Andrade como um diferencial na entrega de conteúdo com baixa latência e alta disponibilidade, especialmente ao lidar com a realidade dos pequenos provedores de internet. A estratégia de expandir a infraestrutura para além dos grandes centros, com servidores em pontos estratégicos do país, não apenas melhora a experiência do usuário final como também permite reduzir custos operacionais para os ISPs parceiros. Andrade revelou ainda que a CDN da Globo passou a ser oferecida a terceiros, com a Sky como um dos primeiros clientes, e se tornou também uma plataforma de monetização e ampliação do alcance.

Sergio Gonçalves, da AWS (Amazon Web Services), trouxe a perspectiva de infraestrutura em nuvem como meio de testar, escalar ou abandonar soluções rapidamente, com baixo risco financeiro. A empresa aposta em sua rede global com mais de mil pontos de presença e foco em segurança para oferecer um ecossistema que atenda às diferentes demandas do setor audiovisual, desde compressão e transmissão de vídeo até serviços de inteligência artificial para dublagem e transcrição. Ele também mencionou o Projeto Kuiper, iniciativa da Amazon para lançar mais de 3 mil satélites de órbita baixa voltados a oferecer conectividade de alta velocidade inclusive em áreas remotas, com foco no mercado corporativo.

Já Eduardo Padilha, da Speedcast, apresentou os testes realizados com o DVB-NIP, tecnologia de transmissão IP nativa via satélite. Com essa inovação, vídeos são transmitidos em formato multicast e convertidos em unicast no receptor, que pode até funcionar como hotspot local. A proposta promete ampliar o acesso a conteúdo multimídia de forma eficiente e multitelas, especialmente em locais onde não há infraestrutura terrestre disponível.

O painel demonstrou que o futuro da entrega de conteúdo no Brasil profundo depende da combinação entre satélite, IP, nuvem, regionalização e modelos de negócio sustentáveis. As soluções já existem — o desafio agora é expandi-las com criatividade, colaboração e estratégia.