Intermodulação FM desafia qualidade de transmissão e segurança aérea

Recomendações técnicas e ações de fiscalização da Anatel para emissoras que compartilham estruturas ou operam em frequências próximas são temas de painel

Apesar de silenciosa e invisível, a intermodulação é uma das principais ameaças à qualidade e à integridade dos sistemas de radiodifusão FM, especialmente em locais onde múltiplas emissoras compartilham torres, antenas ou operam em frequências próximas, como nos canais adjacentes a 400 kHz.

O tema foi destaque do painel “Intermodulação FM: o inimigo invisível no espectro”, moderado por José Mauro Ávila, diretor técnico do Mega Sistema de Comunicação, de Ribeirão Preto (SP). O debate reuniu representantes da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e especialistas do setor para discutir os impactos da intermodulação na recepção do sinal, no comportamento da audiência e na conformidade regulatória das emissoras.

Durante a apresentação, Marcelo Scacabarozi, gerente regional da Anatel em São Paulo, compartilhou casos recentes que ilustram os efeitos críticos da intermodulação no espaço aéreo. Um dos exemplos foi registrado em Vitória (ES), na região do Morro da Fonte Grande, onde múltiplas emissoras operam próximas. O local registrou 38 reclamações de interferência em comunicações aeronáuticas, muitas delas relacionadas a rádios piratas.

Segundo Scacabarozi, houve casos em que transmissões interferentes foram detectadas mesmo com os equipamentos desligados, evidenciando o fenômeno da intermodulação passiva.

Outro caso em destaque ocorreu no Morro da Polícia, em Porto Alegre (RS), onde interferências semelhantes também foram identificadas no espaço aéreo. Como medida emergencial, a Anatel orientou a redução da potência das emissoras da região, enquanto acompanha o caso de perto.

Scacabarozi também destacou que as ações seguem os parâmetros da Portaria nº 2.534/23 da Anatel, que trata da fiscalização e controle técnico de estações de radiodifusão.

Mais de 8 mil estações FM no Brasil

Paulo Eduardo dos Reis Cardoso, coordenador de Inovação e Sistemas de Radiodifusão da Anatel, reforçou a complexidade do cenário nacional. Atualmente, o Brasil possui 8.122 estações de rádio FM em operação, cobrindo grande parte do território nacional.

Segundo Cardoso, a faixa de FM no Brasil vai de 76 a 108 MHz, o que aumenta a chance de intermodulação em locais com alta densidade de emissoras. Ele explicou que, além dos fatores técnicos, elementos aparentemente inofensivos, como cabos, parafusos, juntas metálicas e estruturas corroídas, podem funcionar como antenas não intencionais e causar interferência. “Mesmo com o transmissor desligado, uma instalação mal planejada ou degradada pode gerar intermodulação passiva”, alertou.

O painel apresentou ainda estratégias eficazes de mitigação, como uso de filtragem de sinais e análise espectral; minimização de estruturas metálicas soltas ou mal fixadas e adoção de boas práticas na co-localização de sistemas. Também deixou claro a  importância da cooperação entre reguladores, engenheiros e radiodifusores para garantir a qualidade e a segurança das transmissões.