Fim dos estúdios isolados: produção de qualquer lugar, a qualquer hora

Set Expo 2025 discute modelos escaláveis, ambientes virtualizados e novos perfis profissionais para enfrentar os desafios da mídia moderna

O futuro da produção audiovisual já chegou, e ele é centralizado, virtualizado, distribuído e incrivelmente escalável. Foi com esse pano de fundo que a manhã desta quinta-feira, 21 de agosto, no SET Expo 2025, abriu espaço para um painel técnico e provocativo sobre os rumos da produção 360, reunindo nomes de peso da engenharia e tecnologia da mídia brasileira.

Eduardo Taboada, gerente de Operações do SBT, conduziu o debate sobre “Produção Centralizada: inovando e otimizando a Arquitetura, a Operação e a Forma de Produzir”. A mesa reuniu Carlos Cesar Abrahão, diretor de Projetos Estratégicos e Serviços na Savana Comunicações, Marcelo Fontana, gerente de Tecnologia da Globo, e Marcelo Bossoni, diretor de Tecnologia para Produção de Conteúdos da Globo. Juntos, os três apresentaram, com autoridade e vivência prática, uma nova visão operacional para a indústria de mídia.

“Estamos falando de um ambiente definido por software, onde ganhamos agilidade, flexibilidade e, principalmente, a capacidade de produzir mais com os mesmos recursos”, afirmou Marcelo Bossoni. Para ele, o antigo paradigma de “um switcher por estúdio” está sendo rapidamente substituído por arquiteturas em que qualquer sala de produção pode controlar qualquer evento, independentemente da localização física. “É o fim das ilhas. Estamos conectando tudo em um backbone IP e derrubando barreiras geográficas”, completou.

Marcelo Fontana reforçou que essa transformação não diz respeito apenas à infraestrutura, mas a uma mudança cultural profunda na operação. “A maior transformação não está nos equipamentos, mas no perfil dos profissionais e na forma como produzimos. Antes, tínhamos 38 controles físicos espalhados em sete sites. Agora, com a produção central, esses 38 podem estar virtualmente disponíveis em qualquer lugar, a qualquer hora. É uma revolução”, disse.

Carlos Cesar Abrahão trouxe a perspectiva da experiência acumulada ao longo de 40 anos de indústria. Segundo ele, a adoção de ambientes virtualizados e software-based exige mais do que investimento técnico: “É preciso coragem para migrar de um mundo conhecido e robusto, como o do SDI, para um universo novo e dinâmico, guiado por software, onde a maturidade técnica ainda está sendo conquistada”, destacou.

Os exemplos apresentados durante o painel ilustraram bem essa transição. Em simulações e aplicações reais, foram mostrados cenários onde uma produção como o Bom Dia Brasil, por exemplo, poderia ser comandada do Rio, com operadores localizados em São Paulo, Brasília e até em home office, utilizando workloads distribuídos em diferentes sites, com flexibilidade para alocar, mover ou escalar recursos de forma pontual, inclusive com suporte à nuvem pública.

Entre os principais benefícios destacados, estão a redução do tempo de resposta ao mercado – time-to-market – o melhor aproveitamento da expertise dos profissionais e a possibilidade de produzir conteúdos de alta complexidade, como Olimpíadas ou grandes eventos musicais, sem a necessidade de ampliar fisicamente os data centers. “É uma nova era. Vamos aumentar a produção sem os mesmos investimentos físicos do passado”, disse Bossoni.

Entretanto, os palestrantes também fizeram questão de lembrar que os desafios não são poucos. “Ainda temos que discutir muito os modelos de licenciamento de software, os custos de sustentação e a maturidade dos fornecedores para esse novo formato”, ponderou Fontana. Ele também apontou a necessidade de alertas e sistemas de monitoração eficientes. “Se não monitorarmos o uso da infraestrutura, corremos o risco de sobrecarregá-la, o que pode travar novas produções.”

Outro ponto central foi a orquestração. Os exemplos práticos mostraram que o sucesso da produção centralizada exige planejamento preciso de banda, processamento, armazenamento e controle, além de um sistema robusto de alertas e métricas para o gerenciamento em tempo real das operações, seja para desligar um programa que ultrapassou o horário, seja para escalar capacidade em um site durante uma transmissão especial.

“Não se trata de um único centro de produção operando tudo, mas de uma inteligência que aloca recursos onde e quando for necessário, com flexibilidade para diferentes modelos de negócio e produção”, resumiu Bossoni. “A produção central não é só sobre tecnologia, é sobre viabilizar o futuro da mídia com inteligência, colaboração e inovação”.

No encerramento do painel, ficou clara a mensagem de que os profissionais de mídia que não se prepararem para operar nesse novo ecossistema, onde o controle está em todos os lugares, e em nenhum ao mesmo tempo, podem, em breve, ficar para trás.