SET Norte 2025 destrincha arquiteturas, modelos de negócio e metadados na TV 3.0

O sexto painel aprofundou a discussão sobre TV digital, explorando como a evolução rumo à TV 3.0 deve abrir novas frentes de interatividade, modelos de negócio e experiências para o público, com especialistas da SET, Atlantis, ATSC e UFJF.

O penúltimo painel do SET Norte 2025, realizado em Manaus, analisou “A Nova Era da TV com Interatividade e Novos Modelos de Negócio” e teve como moderador Nivelle Daou Jr., conselheiro da SET; Josemar Cardoso da Cruz, CEO da Atlantis Tecnologia, membro do ATSC e representante regional da SET Nordeste; e Marcelo F. Moreno, professor associado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e membro do módulo técnico do Fórum SBTVD.

Os executivos exploraram a evolução da TV digital com a TV 3.0 e como o ecossistema audiovisual poderá abrir novas frentes com o suporte da inovação tecnológica. Nivelle Daou Jr. abriu a palestra “parabenizando o modelo que está sendo desenvolvido no Brasil”, que permitirá que a “TV 3.0 consiga resgatar do YouTube o garoto de 11 anos para a TV”.

O primeiro a falar foi Josemar Cruz, da Atlantis, que afirmou que a palestra foi pensada como se, em Manaus, já existissem várias emissoras transmitindo em TV 3.0. Assim, na palestra “DTV+, monetização, equação com muitas variáveis e oportunidades”, explicou que a TV deixou sua forma monolítica, já que “ela era o centro da casa”, e que, em 2015, com o lançamento do Slingbox, o YouTube começou a transmissão linear por streaming. 

Dessa forma, mudou para modelos de diversificação, personalização, interatividade e mobilidade. Segundo ele, “a nova TV aberta no mundo digital precisa de interoperabilidade, escalabilidade e alinhamento internacional” para, assim, se “reinventar” e avançar, pois “a transição para um formato baseado em IP é essencial para garantir que as emissoras permaneçam competitivas no atual cenário da mídia digital”. É necessário ainda “capacitar as emissoras locais a inovar e atender seu público de novas maneiras”, em um ambiente no qual engajamento, mensuração e conversão criados por protocolos padronizados asseguram o sucesso da TV 3.0.

Segundo Josemar Cruz, no “ecossistema digital há uma nova cadeia de valor na qual se conjugam emissoras de TV; desenvolvedores de software; cloud providers; integradores de sistemas; produtores de conteúdo; plataformas de OTT; agências de publicidade e marketplaces”. Assim, surgem “novas oportunidades de monetização, como a publicidade data driven; e-commerce na TV; modelos de VOD; votação; enquetes; quiz e recomendação de conteúdo”.

Cruz também comentou sobre as estações experimentais de São Paulo e da Globo, analisou o sistema TV 3.0 em nuvem ou on premise e afirmou que “os diferenciais passam por Gold Server”, que farão a diferença, além da transmissão em MIMO 2×2, que permite transmitir até em 8K com um transmissor com duas saídas e filtro duplo.

Finalizou dizendo que a Atlantis representa a DigiCap e mostrou a evolução do sistema ROUTE Server e Gateway no ATSC 3.0. Afirmou ainda que é necessário ter pontos de atenção, como a “continuidade no desenvolvimento dos componentes do core para a operação em nuvem; integração entre diferentes ISVs; necessidade de otimização dos recursos (VMs); padronização de interfaces, APIs, protocolos de controle e sinalização; e desenvolvimento de soluções escaláveis, flexíveis e eficientes”.

O executivo simulou ainda o e-commerce em concorrência com a TV 3.0 e disse que “há um cabo de guerra”, porque não há comunicação entre operadoras e emissoras, nem entre fabricantes de smartphones e emissoras. Assim, segundo Cruz, “é possível formar um novo workflow com anunciantes, agências, plataformas de CRM e IPs das TVs conectadas, que podem fazer o funil de compras com leads de audiências”, modelo que pode remunerar a emissora, os vendedores de aparelhos celulares e gerar ganhos para todos. Para isso, demonstrou o funcionamento do set-top box e simulou uma interação.

Pela sua parte, o professor Moreno, na palestra “DTV+ e o Protagonismo dos Metadados”, afirmou que a TV 3.0 introduz um novo paradigma, no qual o acesso ao conteúdo deixa de depender da escolha de canais e passa a ocorrer por meio da seleção de aplicativos. Nesse modelo, os serviços de radiodifusão são disponibilizados em um ambiente unificado e orientado a apps, desenvolvido especificamente para os radiodifusores. Diferentemente dos padrões anteriores, focados apenas em middleware, a TV 3.0 estabelece uma plataforma completa de software, abrangendo back-end, front-end e interfaces de usuário, garantindo assim uma experiência integrada e consistente.

Moreno analisou a “varredura e descoberta de Bootstrap Apps”, que permite a descoberta de Serviços DTV+ por meio da Service List Table (SLT). Ele falou do globalServiceID, número de canal virtual, parâmetros de descoberta (destination IP, port), instanciação dos aplicativos iniciais via Bootstrap Application Manifest Table (BAMT), casando BAM@globalServiceId ao serviço correspondente na SLT. Explicou que é importante pensar na “experiência do telespectador: em vez de canais, a varredura ilustra os Bootstrap Apps sendo automaticamente instalados, cada um atuando como ponto de entrada para o serviço correspondente”.

O professor falou ainda sobre “a proeminência do DTV+”, presente no decreto da TV 3.0 assinado pelo presidente Lula, e sobre o “catálogo de aplicativos DTV+”, que terá ordenação inicial pelo número de canal virtual e “multiprogramação com agrupamentos obrigatórios, sempre mostrados como um ícone único, e agrupamentos opcionais, expandidos em ícones separados se o catálogo puder ser mantido com até 40 ícones no total”. Segundo Moreno, “o catálogo reavalia a expansão/retração de agrupamentos opcionais sempre que atualizações ocorrerem na BAMT”. Em termos de aplicativos, “o telespectador poderá favoritar os aplicativos iniciais para personalizar a experiência”.

Ele falou dos metadados do Electronic Service Guide (ESG), o que permite, por exemplo, quebrar a linearidade “oferecendo conteúdo em VOD”. Ainda mencionou o EPG e destacou que “é necessário cuidar dos metadados”.

Moreno encerrou a palestra abordando o gerenciamento de privacidade na DTV+, com “uma base enorme que define finalidade, objetivo, tudo baseado na lei de proteção de dados europeia”. Também explicou o Gerenciador de Medição de Audiência, responsável por orquestrar todo o ciclo de vida de sessões de medição de audiência, representando períodos controlados de coleta de dados comportamentais do telespectador. Assim, afirmou, “as sessões são explicitamente iniciadas pelo radiodifusor e condicionadas à concordância do telespectador (PRRD: anuência em um ‘purpose’ com @type=’dpv:ServiceUsageAnalytics’), onde cada sessão é associada a um serviço DTV+ específico e a um perfil de telespectador, garantindo integridade contextual”, ou seja, uma “jornada centrada no telespectador e metadados”.

O SET Norte contou com patrocínio de Alliance, Canon, Speedcast e Atlantis; apoio de NeoID, Teletronix, Showcase, Broadmedia e Pinnacle; e apoio institucional da Abratel, Abert, Rede Amazônica e TV Encontro das Águas.

 

Por Fernando Moura e Fernanda Vio