SET Centro-Oeste: O futuro da TV aberta passa pela regulação, dizem especialistas

O primeiro painel do SET Centro-Oeste 2026, um dos mais esperados, analisou a situação regulatória do setor e vislumbrou o futuro da radiodifusão com a presença de destacados executivos do executivo federal que explicaram, entre outros pontos, os próximos passos da TV 3.0. Estação experimental de Brasília devce entrar no ar no início de abril.

Foto: Abelardo Mendes Jr / SET

O SET Centro-Oeste 2026 começou na manhã desta quarta-feira, 18 de março, com o painel “Atualizações Regulatórias – Tecnologia e Regulação em Debate”, reforçando o caráter estratégico do encontro diante dos avanços da TV 3.0, da convergência digital e das transformações regulatórias que impactam o setor.

Participaram Wilson Diniz Wellisch, secretário da Secretaria de Comunicação Social Eletrônica do Ministério das Comunicações; Cristiano Flôres, presidente executivo da ABERT; Gunnar Bedicks, CTO da Seja Digital; Samir Nobre, diretor-geral da ABRATEL; Kim Mota, gerente de Espectro, Órbita e Radiodifusão da ANATEL; e Carlos Eduardo Neiva Melo, vice-presidente de Rede e Tecnologia da ASTRAL. Os executivos, moderados por Geraldo Cardoso de Melo, representante da SET Regional Sudeste, analisaram o marco regulatório e trouxeram as principais novidades a Brasília.

Na abertura, Cardoso de Melo destacou a relevância do momento da radiodifusão: “a regulamentação não pode ser nem muito engessada nem muito aberta”, afirmando que, com o novo padrão, é necessário trabalhar para que a TV 3.0 comece da melhor forma.

O secretário de Radiodifusão afirmou que o Ministério das Comunicações passou os últimos três anos em uma discussão intensa sobre a escolha da tecnologia da TV 3.0, iniciada há alguns anos. Após testes e debates, o padrão foi definido e, segundo ele, o Ministério “está trabalhando” para o lançamento da nova televisão. “Estamos trabalhando na ordem dos canais virtuais no mosaico” para definir “como organizamos isso”.

Por outro lado, Wilson Diniz Wellisch destacou que o trabalho também envolve “segmentação geográfica e alertas de emergência”, enquanto a Anatel atua nos requisitos técnicos, especialmente na destinação da faixa de 300 MHz.

Ele explicou que o MCom vem acelerando a TV 3.0 com instrumentos de financiamento, como “linhas de crédito, com 500 milhões de dólares com o Banco Mundial e o BID”, além do “Ex-Tarifário como exceção de impostos de importação”. Segundo ele, “sabemos que a isenção no início será importante, enquanto trabalhamos para produzir equipamentos no Brasil”. Sobre financiamento, afirmou que os bancos ainda estão definindo etapas e regras para lançar as linhas de crédito da TV 3.0 “nos próximos tempos”, além de articulações com o BNDES.

Wellisch também mencionou o programa Brasil Digital e destacou os avanços em mobilidade com a tecnologia 5G Broadcast, citando testes realizados pela Rede CNT em Curitiba (PR). Para ele, “levar a TV para a mobilidade pode ser o game changer da TV”. Finalizou afirmando que “o MCom trabalha para a abertura de novas licitações de TV aberta”.

Kim Mota destacou o caráter colaborativo do setor: “o setor é colaborativo, o que faz o país crescer, gerando uma construção positiva”. Segundo ela, essa colaboração tem sido fundamental para o avanço da TV 3.0. A Anatel trabalha com “canais consolidados em 300 MHz, com 12 canais”, e atualmente analisa contribuições da consulta pública sobre destinação de faixa e canalização.

Ela acrescentou que a Agência também atua nos “requisitos técnicos para a TV 3.0”, com foco em segurança e eficiência: “queremos acelerar os processos”. Mencionou ainda os SARCs (Serviços Auxiliares de Radiodifusão e Correlatos) e novos espaços para “reportagem externa”, além do trabalho internacional para difundir o novo padrão. Questionada sobre rádio, afirmou que a Anatel pretende abrir debate para “atualizações nos requisitos técnicos da radiodifusão sonora”.

Entidades do setor frente à mudança tecnológica

Cristiano Flôres avaliou que o momento é positivo, “com um cenário pautado pela institucionalização” e bom relacionamento com o MCom e a Anatel. Ressaltou que, por ser um ano eleitoral, o contexto é “diferente”. Para ele, o regionalismo é essencial: “nós chegamos onde as plataformas não chegam, o que é uma fortaleza”.

Ele defendeu que o setor deve se posicionar como indústria: “hoje nos apresentamos como indústria nacional”, destacando o impacto na cultura e na soberania. Segundo Flôres, esse posicionamento é fundamental para “a defesa do jornalismo nacional e sua sustentabilidade”, especialmente diante do uso de conteúdo por plataformas sem remuneração. “Trabalhamos na sustentabilidade, por exemplo, na Inteligência Artificial, e como as plataformas usam e não remuneram quem faz jornalismo”.

Também citou estudos de impacto econômico do audiovisual, como no Rio de Janeiro, e anunciou novos levantamentos: “vamos ter quatro eventos e estudos específicos em Minas e São Paulo, para mostrar a importância do setor”.

Samir Nobre afirmou que “o setor é forte porque tem entidades fortes”, destacando o momento como decisivo e de “inquietação”, fruto do diálogo entre entidades e governo. Sobre a implementação da TV 3.0, disse que “não há que inventar a roda, apenas copiar o que foi feito com a TV digital”.

Para ele, a TV deve “manter a relevância”, e a TV 3.0 permitirá “mídia de performance com comunicação em massa”, com entrega de conteúdo personalizado. Destacou ainda a necessidade de financiamento: “será necessário ter linhas de crédito para afiliadas que não têm a mesma capacidade de investimento”. Concluiu afirmando que “o futuro passa por manter a relevância com a mídia de performance e a TV aberta e gratuita na palma da mão”.

TV pública

Carlos Eduardo Neiva Melo destacou o papel da Rede Legislativa na “comunicação pública e democratização da televisão”. Segundo ele, a TV atual continua relevante, mas é necessário garantir que, na TV 3.0, ela mantenha protagonismo, especialmente nas smart TVs.

Ele ressaltou o “aspecto colaborativo” e a importância de um esforço conjunto das emissoras públicas para fortalecer a comunicação e atrair novas gerações com personalização de conteúdo. “A plataforma comum integra Executivo, Legislativo e Judiciário, permitindo levar serviços de governo com uma comunicação mais significativa para o telespectador”. Finalizou afirmando que trabalha com o setor satelital para ampliar a cobertura nacional.

Receptores de TV 3.0

Gunnar Bedicks abordou os receptores de TV 3.0 e o trabalho do projeto Digitaliza Brasil, com mais de 8 mil canais no país. Segundo ele, o desenvolvimento envolve fabricantes de toda a cadeia: “da core a antenas e transmissores”, o que levou à criação de “uma sala técnica virtual e on-premise” para garantir a melhor experiência. Ele anunciou que, em Brasília, na Torre Central, haverá uma estação operacional “no início de abril”, permitindo que a população experimente o novo padrão.

Bedicks destacou que TVs de nova geração com set-top-box “permitiram um ganho de 8 dB nos limiares de recepção” e informou que cerca de 3 mil unidades chegarão ao Brasil nos próximos dias para fomentar testes. Finalizou afirmando que um dos principais desafios será o desenvolvimento de aplicativos para os receptores.

O SET Centro-Oeste tem patrocinio Ouro de: Alliance, Canon, CIS Group, MediaPortal, MediaStream, SES, SimbaCDN, Sony e SpeedCast. Patrocínio prata de SDVMultimidia e BlackMagic, Broadmedia e Pinnacle Group; e apoio da ABERT, LineUp, Teletronik, Showcase e Ablink. Ainda com apoio institucional da Abratel, Astral, Globo, Record, TV Bandeirantes e SBT

 

Por Fernando Moura (Reportagem) e Fernanda Vio (Edição)