Exclusivo – Rede CNT realiza demonstração de 5G Broadcast e aponta futuro da TV aberta no celular

A tecnologia em demonstração na Rede CNT utiliza transmissão ponto-multiponto em espectro dedicado para entregar sinal de TV aberta diretamente a dispositivos móveis, sem uso de dados ou sobrecarga das redes celulares; operação já alcança 1 kW de potência sem registro de interferências, indicando viabilidade de integração com o ecossistema da TV 3.0 e convivência eficiente com a infraestrutura de telecomunicações existente. Demonstrações foram acompanhadas pelo Ministério das Comunicações e pela Anatel. 

Equipe da Rede CNT durantes as demonstrações de 5G Broadcast

A sede da Rede CNT, em Curitiba, no Paraná, está no centro das demonstrações brasileiras de 5G Broadcast, tecnologia que promete transformar o acesso à TV aberta ao permitir a transmissão direta para celulares, sem consumo de dados móveis. Os experimentos, realizados na capital paranaense, contaram com a presença do ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, e reúnem governo, indústria e radiodifusores na avaliação do novo modelo.

As demonstrações começaram nos dias 24 e 25 de fevereiro de 2026, quando foram realizadas medições de campo sem transmissão, com o objetivo de estabelecer uma referência para o nível de sinal e as condições da rede antes do início das transmissões. Eles foram coordenados pela Rohde & Schwarz, com participação da Ateme, EFTX, Anatel, Claro e apoio do Ministério das Comunicações — avaliaram o comportamento do sinal, sua convivência com as redes móveis e o potencial de implantação do sistema no país. Até o momento, os resultados são considerados positivos.

Para o diretor técnico da Rede CNT, Robson Tavares, o principal objetivo da emissora ao participar das demonstrações é ampliar o alcance da televisão aberta. “Nossa intenção é levar televisão gratuita e aberta para os celulares, permitindo que o público assista aos conteúdos sem gastar seus dados, mesmo em deslocamento”, afirmou à reportagem da Revista da SET.

Para Tavares, o trabalho conjunto entre a emissora, players do setor e governo brasileiro resultou em uma operação integrada e eficiente, com etapas que incluíram planejamento de cobertura, verificações de interferência, ajustes de configuração, autorizações e o roteiro de demonstrações em campo.

 

A operação, explicou o diretor técnico da CNT, exigiu cuidados específicos devido à proximidade da faixa de transmissão com as bandas utilizadas comercialmente pelas operadoras. Por isso, o processo começou com medições em carga e transmissões com potências extremamente baixas, evoluindo gradualmente até chegar ao patamar atual de 1 kW. Tavares explicou à Revista da SET, que o maior desafio foi manter rigor técnico em cada fase para assegurar a convivência harmônica entre os sistemas. A ampliação de potência ocorreu de maneira tranquila, justamente porque não foram constatadas interferências que inviabilizam o serviço. Nos experimentos foram utilizados celulares fornecidos por Qualcomm e Motorola, equipamentos de análise da Rohde & Schwarz e instrumentação da Anatel.

Qualidade e estabilidade do sinal

Um dos pontos que mais chamaram a atenção da equipe técnica foi o desempenho do sistema durante as primeiras demonstrações. Segundo Tavares, a experiência tem sido consistente com as expectativas iniciais. “A fluidez e a qualidade das imagens no celular são destaques. Até o momento, não identificamos interferências ou instabilidades no sinal”, destacou.

As demonstrações começaram com transmissões em baixa potência, de 30 watts, e foram gradualmente ampliados até 1 quilowatt. Mesmo com o aumento, não houve registro de impactos relevantes nas redes de telefonia móvel. “Até 1 kW de potência, o 5G Broadcast está convivendo há vários dias sem sinais de problemas com as redes móveis”, explicou o diretor, e explicou que o monitoramento realizado pela Anatel e pelas operadoras tem sido considerado fundamental para o avanço das demonstrações, fornecendo segurança técnica e garantindo coexistência entre os sistemas.

Para o executivo, o desempenho está alinhado às expectativas iniciais, embora ainda seja necessário confirmar a ausência de interferências na potência atual para permitir novos incrementos e uma cobertura mais ampla na cidade. Em fases futuras, comentou, será fundamental avaliar a viabilidade de redes SFN, que podem oferecer cobertura homogênea e continuidade de recepção, especialmente em áreas urbanas densas.

Desafios técnicos e cooperação

A operação exigiu precisão técnica e coordenação entre diferentes instituições. A CNT trabalhou em parceria com empresas e órgãos reguladores para viabilizar a infraestrutura necessária. “O maior desafio foi atuar com extremo cuidado em uma faixa de frequência próxima à das telecomunicações. Fizemos medições sem transmissão, depois com potência muito baixa e fomos evoluindo gradualmente”, relatou Tavares.

Ele também destacou a integração entre os envolvidos como um fator determinante para o sucesso da operação. “Foi uma grande parceria entre indústria, governo e radiodifusores, com excelente colaboração entre equipes que, muitas vezes, estavam trabalhando juntas pela primeira vez.”

 

TV 3.0 e consumo móvel

Tavares observa que o 5G Broadcast se integra de maneira natural ao modelo de TV 3.0 em desenvolvimento no Brasil, pelo que é considerada complementar e avalia que a proposta é ampliar o acesso ao conteúdo, especialmente para o público que consome vídeo pelo celular.

“Ela complementa a TV tradicional, mantendo o telespectador conectado mesmo longe de um televisor e atendendo principalmente os jovens, que já têm o hábito de consumir conteúdo no celular”, afirmou Tavares.

Olhar do MCom e Anatel

O ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, esteve em Curitiba e afirmou que acompanhar as demonstrações é fundamental para que o Brasil avance na discussão sobre o futuro da televisão e da comunicação digital. “A recepção da TV 3.0 nos aparelhos celulares representa uma evolução importante para o setor de comunicações. Essa tecnologia combina o alcance da TV aberta com a mobilidade dos dispositivos digitais, ampliando o acesso da população à informação, ao entretenimento e aos serviços públicos”, afirmou o ministro.

Pela sua parte, o secretário de Radiodifusão do Ministério das Comunicações, Wilson Wellisch, explicou que o 5G Broadcast representa um avanço na forma de distribuição de conteúdo televisivo. “O 5G Broadcast é um padrão tecnológico que permite a transmissão de televisão diretamente para dispositivos móveis. Os testes que estamos realizando aqui foram solicitados pelo Ministério das Comunicações e têm como objetivo avaliar se essa tecnologia pode operar de forma harmoniosa com as redes móveis já existentes, sem causar interferências”, disse.

Já o superintendente de Outorga e Recursos à Prestação da Agência Nacional de Telecomunicações, Vinícius Caram, destacou que a evolução tecnológica da radiodifusão caminha junto com o avanço das redes móveis. “A evolução das tecnologias não acontece apenas nas redes móveis, mas também na radiodifusão. Estamos falando da TV 3.0 e agora da possibilidade de levar essa televisão para dispositivos móveis. O objetivo desses testes é justamente verificar se o sinal do 5G Broadcast pode operar sem causar interferências nos sistemas atuais. Se tudo avançar como esperado, a população brasileira poderá, em breve, receber o sinal da TV aberta e gratuita diretamente no smartphone, de forma simples e acessível”, finalizou.

O futuro

Apesar dos resultados positivos, ainda há etapas importantes antes de uma eventual implementação comercial. Entre elas, a definição da potência ideal de transmissão e o modelo de cobertura, que pode envolver redes de múltiplos transmissores, disse Tavares à reportagem e reforçou que estas demonstrações têm como objetivo comprovar a viabilidade técnica da solução. A partir disso, será necessário um alinhamento entre governo, radiodifusores, fabricantes e sociedade.

“A discussão precisa envolver todo o ecossistema. O avanço só acontece se houver consenso entre todos os atores”, ressaltou Tavares.

Potencial no Brasil

Com demonstrações em andamento também em outros países, o 5G Broadcast é visto como uma das principais apostas para o futuro da radiodifusão. Para a CNT, a participação é vista como parte de um compromisso histórico com a inovação no setor de radiodifusão. Os próximos passos dependem das análises técnicas e de uma discussão mais ampla envolvendo governo, radiodifusores, fabricantes de equipamentos, indústria de dispositivos móveis e sociedade. A emissora se mantém aberta para colaborar em novas fases, inclusive em outras cidades, caso haja necessidade. Tavares avalia o potencial da tecnologia no país de maneira otimista, lembrando que outros países também vêm obtendo resultados consistentes com o 5G Broadcast. 

Para ele, o fundamental é assegurar que o conteúdo da TV aberta chegue aos celulares — seja via 5G Broadcast ou por outra solução que se mostre tecnicamente e economicamente viável. “Vejo o potencial de forma muito positiva. O mais importante é conseguirmos chegar aos celulares e ampliar o acesso da população à TV aberta, independentemente da tecnologia adotada”, finalizou.

 

Por Fernando Moura, em Curitiba (PR)