Pós IBC debate usos da IA na indústria audiovisual
Lideranças da Globo, Record, Band e Vibra discutem em São Paulo como a inteligência artificial vem transformando os fluxos de produção, a publicidade e a experiência do público na era da TV 3.0 — entre promessas de eficiência e desafios éticos sobre autenticidade e curadoria humana.

O último painel, “Broadcast, Infraestrutura e Tecnologias para o Futuro da TV 3.0″, foi moderado por Carol Alberto Correia Garcia, Gerente de Engenharia do Grupo Bandeirantes, e teve como participantes Diego Ramos, Diretor de Plataformas Digitais da Globo e Coordenador do Módulo Técnico do Fórum SBTVD; Tomaso D’Angelo Wantuil Papi, Gerente de Engenharia e Tecnologia da Record Brasília; e Eduardo Endo, CTO da Vibra Digital (Band).
Carol destacou que, atualmente, a inteligência artificial “é vista como solução” e já não apenas como uma ferramenta. Ramos afirmou que o que mais chamou sua atenção foi “o amadurecimento do tema, onde houve muitos cases interessantes. Vimos muitos cases com enriquecimentos de metadados, que efetivamente podem trazer contexto para cada uma dessas cenas. Vimos uma ferramenta que, a partir do momento que detecta o contexto, pode fazer um recorte vertical ou colocar na internet. Detecta oportunidades de publicidades ou formas de publicidade no break”, e também como “tirar benefícios”.
Wantuil Papi observou que, em 2024, a utilização da IA era mais contextual, mas “agora já há aplicações práticas, como aceleração de processos, descrição, que já têm soluções”. Para Endo, o IBC mostrou que a IA ainda está em fase de testes. “Como por exemplo, na geração de vídeo, vimos soluções assustadoras, mas ainda tem um grande ponto: todo mundo aceita um vídeo meio tosco nas redes sociais, mas quando se fala da TV não se aceita.” Segundo ele, a Band também está testando geração de vídeo, mas enfrenta os mesmos desafios que outras emissoras. “Hoje essa geração gera vídeos curtos, e com isso o problema é que os vídeos perdem contexto, porque é necessário que o storytelling esteja integrado em cada uma das imagens geradas.”
Falando sobre IA nas emissoras, Wantuil Papi disse “que ainda temos dificuldade para ter profissionais que possam interpretar prompts gerados”. Ramos complementou que “é sempre importante ter revisão humana, porque a IA alucina, e sem curadoria, seria impossível”. Carol Alberto reforçou que “as emissoras deverão, por enquanto, ter escritores de prompts que trabalhem muito bem, porque por enquanto isso está distante”.
Outro ponto abordado foi a latência. Ramos destacou que a Globo trabalha “com baixa latência para streaming, com de 6 a 12 segundos de diferença”. Segundo ele, há um amadurecimento da tecnologia, com soluções em escala para milhões de usuários. A latência ultrabaixa, explicou, “fica entre 2 e 5 segundos, dependendo de quem está recebendo”. No caso do Ultra Low Latency, “o desafio é fazer isso para milhões. O IBC fez um grupo e mostrou um case demonstrado pela Comcast com uma tecnologia em escala, com milhões de usuários na Europa, com o Sub-Second Latency Streaming (streaming com latência abaixo de um segundo), com queda de latência para apenas milissegundos”.
Sobre a TV 3.0, Tomaso afirmou que “em termos de tecnologia não vai ter problemas, mas haverá dificuldades na orquestração olhando para dentro. A questão é olhar para dentro e ver como fazer essa entrega de conteúdo”. O executivo da Vibra complementou que o grande desafio não está em entregar com essa tecnologia, mas sim “como utilizar e assim entregar com a pesquisa de dados segmentada. Como usar os dados, como desafiar a privacidade de dados e como cuidamos dela. Hoje a TV 3.0 terá uma escala muito maior, com acesso massivo aos dados”.
Ramos endossou e acrescentou que “é necessário ter capabilities acordes a essa publicidade customizada, como vamos segmentar esse usuário, como vamos mudar o negócio que agora vai passar a vender performance. Temos um amadurecimento das tecnologias e como trabalhar com publicidade com a evolução do advertising e, com isso, novos formatos publicitários”.
Um dos destaques foi o SGAI (Server-Guided Ad Insertion), ou Inserção de Anúncios Guiada por Servidor — tecnologia de publicidade que personaliza anúncios em tempo real. Ramos explicou que o recurso “foi recentemente incorporado no padrão de TV 3.0”, permitindo uma integração entre TV e mídias sociais com um padrão unificado.
Encerrando o painel, o executivo da Vibra observou que “nas corridas de Fórmula 1, à tarde dá mais audiência no digital, e as de manhã dão mais na TV tradicional. Não é só o perfil, mas sim o comportamento. Estudar essas correlações é fundamental.” Ramos complementou que “há que entregar uma experiência cada vez mais fluida, onde ele está no centro, e que assistir à tela grande esteja integrado com a tela pequena”.
A autenticidade do conteúdo também foi destacada. O executivo da Vibra afirmou que, com a proliferação de produções feitas por IA, é preciso “um manifesto para o vídeo”. “Hoje a IA faz e depois se descobre porque é um conteúdo bizarro, assim precisamos ter um manifesto onde se autentica que o conteúdo é real”, afirmou. Para concluir, Ramos ressaltou que “é importante manter os valores editoriais das emissoras”, enquanto Tomaso ponderou que, no futuro, “o conteúdo relevante será o que seja autêntico e sem IA na sua produção”.
Por Fernando Moura, em São Paulo



