Orelhões entram em fase final de desativação no Brasil
Símbolo urbano por décadas, telefones públicos sobrevivem apenas em regiões sem cobertura de celular após o fim das concessões da telefonia fixa. Os últimos 30 mil telefones de uso público já têm data marcada para a aposentadoria: o final de 2028.
A nova geração talvez nunca tenha visto um orelhão — ou, tecnicamente, um Telefone de Uso Público (TUP). Ícone das cidades brasileiras por décadas, esses aparelhos estão cada vez mais raros. Embora milhares já tenham sido retirados das ruas, cerca de 30 mil orelhões ainda permanecem espalhados pelo país.
A partir deste ano, as empresas de telefonia fixa deixam de ser obrigadas a mantê-los. Em dezembro de 2025, foram encerradas as concessões do Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC), que passaram a operar em regime de autorização, conforme previsto na Lei Geral de Telecomunicações. A mudança marca a transição definitiva da telefonia pública para as redes móveis e digitais.
Os orelhões foram lançados em 1972 em todo o Brasil. O design foi assinado pela arquiteta Chu Ming Silveira, chinesa radicada no país. Segundo a Agência Brasil, a rede, que já teve mais de 1,5 milhão de terminais, era mantida por concessionárias de telefonia fixa, como uma contrapartida obrigatória do serviço.

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), não há atualmente uma norma que determine ou regulamente expressamente a retirada dos orelhões não obrigatórios. Ainda assim, a agência avalia solicitar às operadoras a apresentação de um plano de retirada desses terminais.
Os usuários podem solicitar às prestadoras a retirada dos orelhões não obrigatórios diretamente nas centrais de atendimento das empresas. Em caso de não atendimento, o consumidor, de posse do protocolo, pode registrar reclamação na Anatel por meio da central telefônica 1331 ou pelo portal da Agência na internet.
Como contrapartida ao fim das concessões, as operadoras assumiram compromissos de investimento em infraestrutura de telecomunicações. Entre as ações previstas estão a implantação de fibra óptica em localidades sem esse tipo de rede, a instalação de antenas de telefonia móvel com tecnologia mínima 4G em áreas sem cobertura adequada, a expansão da rede móvel em municípios, a implantação de cabos submarinos e fluviais, um amplificadorcentro de dados.
Orelhões remanescentes
Cerca de 9 mil telefones de uso coletivo permanecerão ativos em cidades onde não haja ao menos o sinal 4G para a rede móvel. Hoje a maior parte dos TUPs estão no estado de São Paulo, e sua localização pode ser consultada no site da Anatel. Ainda, São Paulo concentra o maior número de aparelhos: 27.918 orelhões ativos e 808 em manutenção. Em seguida aparecem a Bahia, com 965 em, e o Maranhão, com 653 ativos e 516 em manutenção.
Segundo a Anatel, as prestadoras devem cumprir as obrigações remanescentes, mantendo até 31 de dezembro de 2028 aproximadamente nove mil orelhões. Nessas regiões, sempre que não houver cartão disponível, os aparelhos devem permitir chamadas locais e nacionais para telefones fixos sem custo ao usuário. Isso ocorre porque o custo de produção dos antigos cartões telefônicos é hoje superior ao valor das ligações.
Para a Anatel, a quase inexistência de telefones públicos nas ruas reflete o sucesso das políticas adotadas ao longo de décadas para a ampliação das redes móveis e de fibra óptica, que tornaram o acesso à comunicação mais amplo no país.
Por Fernando Moura com Agência Brasil e Anatel