“Guerra do delay” nas transmissões da Copa do Mundo
Audiência da estreia do Brasil na Copa evidencia fragmentação entre TV aberta e plataformas digitais. Dados divulgados pelas plataformas indicam desempenho relevante de Globo, SBT e CazéTV e apontam mudanças nos hábitos de consumo de transmissões esportivas no país. CazéTV quebra recorde e o jogo de estreia da seleção brasileira se transforma na maior Live do Youtube da história.

CazeTV atingue recorde de 12,7 milhões / Foto: Reprodução
A Copa do Mundo começou e a transmissão da estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo, no empate em 1 a 1 contra o Marrocos no sábado (13/6), registrou resultados expressivos em diferentes plataformas e modelos de distribuição. Dados de audiência revelados pela Globo, SBT e CazéTV, indicam que as três detentoras de direitos alcançaram níveis relevantes de audiência, refletindo a coexistência entre televisão aberta e streaming no consumo esportivo. Mas um dos pontos mais falados – antes, durante e após a estreia – foi o delay (latência) e a tentativa por mostrar quem ‘iria gritar o gol primeiro’.
Sem dados ainda fechados, no último sábado, observou-se diferença de latência entre as principais plataformas de distribuição de conteúdo esportivo. As emissoras do Grupo Globo — com exibição simultânea na TV aberta, SporTV, GETV e Globoplay — apresentaram atraso estimado entre 5 e 8 segundos em relação ao evento ao vivo, sendo o maior valor registrado na plataforma de streaming Globoplay (8 segundos).
Já o SBT, que realizou a cobertura em parceria com a N Sports (TV por assinatura), apresentou desempenho equivalente ao da concorrente na televisão aberta, sem diferença perceptível de sincronismo entre os sinais terrestres monitorados na cidade de São Paulo. A transmissão liderada por Galvão Bueno teve diferenças de milésimas de segundo, como pode observar a reportagem em amostras realizadas por fontes consultadas.

Transmissão da Copa do Mundo FIFA 2026 no SBT/ Foto: SBT
Por sua vez, a CazéTV, distribuída por meio das plataformas YouTube, Prime Video e Disney+, registrou latência superior à observada nas transmissões lineares, com atraso de até 20 segundos em relação aos sinais de TV aberta, segundo monitoramento realizado pela reportagem durante a transmissão utilizando uma TV conectada e um celular para analisar as diferenças com os sinais de TV aberta recebidos na redação da Revista da SET.
Nesse contexto da denominada, “Guerra do delay”, o coordenador do GT de OTT da SET, Salustiano Fagundes, disse que “entregar uma experiência de delay próximo de zero em eventos ao vivo é, para muitos, o ‘Santo Graal‘ do streaming”.
Métricas de audiência
Na TV aberta, a Globo teve uma audiência no PNT (Painel Nacional de Televisão) de 33 pontos (35 no Rio de Janeiro e 32 em São Paulo), com 55% de share, e média de 31 pontos, durante o período da partida, exibida entre 19h03 e 21h05, a sua “maior audiência no horário em dez anos” em um sábado, e alcançou quase 50 milhões de pessoas juntando a TV Globo, Sportv e ge tv. Apesar do desempenho, o resultado também representa a menor audiência da emissora em jogos da seleção brasileira em Copas do Mundo. Vale lembrar que na estreia do Brasil na Copa de 2022 a Globo alcançou mais de 74 milhões de brasileiros com apenas a TV aberta.
O SBT, que contou com narração de Galvão Bueno, registrou 8 pontos de média e picos de 11 na Grande São Paulo, seu melhor resultado no ano. No Rio de Janeiro, a média foi de 6 pontos, índice também observado no Painel Nacional de Televisão (PNT). Considerando a medição consolidada, o desempenho foi de 8,07 pontos de média e pico de 10,64, configurando o maior resultado da emissora na competição.
Em comunicado, o SBT afirma que ” no dia da estreia da Seleção Brasileira contra Marrocos, a cobertura do SBT alcançou 22,5 milhões de pessoas em todo o país. Na mesma data, a emissora registrou crescimento de 322% na audiência nacional e de 313% na Grande São Paulo em relação à média das quatro semanas anteriores, consolidando-se na vice-liderança nas duas medições”.
- Globo na estreia do Brasil/ Foto: Reprodução
- SBT Na Copa do Mundo / Foto: Rogerio Pallatta/SBT
Recorde no Youtube
No ambiente digital, a CazéTV alcançou o maior desempenho desde a criação do projeto esportivo, em dezembro de 2022. A transmissão comandada por Luis Felipe Freitas registrou pico de 12,7 milhões de aparelhos conectados, configurando também o maior número já alcançado por uma transmissão ao vivo na plataforma do Google e a maior audiência de uma live no Youtube.
O recorde anterior foi atingido em 2023 com a transmissão ao vivo da missão espacial Chandrayaan-3, realizada pela agência espacial indiana ISRO, e que mostrou o pouso na Lua da nave. Nessa live houve cerca de 8 milhões de espectadores simultâneos. Na Copa de 2022, o canal liderado por Casimiro Miguel tinha alcançado os 6 milhões, no Jogo Brasil x Croácia e se transformado na transmissão ao vivo com maior acessos simultâneos na plataforma do mundo. A audiência de Brasil e Marrocos representa um aumento de quase 3,5 vezes ao registrado há 4 anos.

Cenário do programa Partiu Copa! Cobertura da Globo na Copa do Mundo 2026 tem estúdio interativo com novo painel de LED, Realidade Aumentada e ambientes dinâmicos / Foto: Globo
Mudança de hábitos de consumo audiovisual
O desempenho simultâneo das diferentes plataformas evidencia uma segmentação no consumo de conteúdo esportivo, com distinções entre modelos de distribuição. A TV aberta mantém a vantagem em termos de latência e estabilidade de transmissão, enquanto iniciativas digitais incorporam formatos baseados em linguagem de internet e interação com o público. Nesse cenário, a escolha do usuário passa a considerar fatores como tempo de acesso ao conteúdo e experiência de consumo, indicando uma mudança no padrão tradicional de audiência.
Latência/Delay
A diferença de desempenho está diretamente relacionada à arquitetura de distribuição utilizada por cada plataforma. Na radiodifusão terrestre, o sinal percorre uma cadeia relativamente curta: produção, contribuição, processamento e transmissão. Já nos serviços OTT, o conteúdo precisa passar por etapas adicionais, como: codificação e transcodificação adaptativa; empacotamento para protocolos HTTP; distribuição via CDN (Content Delivery Network); armazenamento em buffers dos players; e adaptação dinâmica de bitrate (ABR).

Foto: Reprodução
Cada uma dessas etapas adiciona alguns segundos à cadeia de entrega. Em transmissões de grande escala, os operadores frequentemente optam por buffers mais robustos para garantir estabilidade e evitar interrupções, aumentando a latência total. No caso do Youtube se sabe que uma das estratégias passa por a distribuição a partir de CDN próprias e priorizando o acesso à última milha para melhorar a experiência do usuário.
Em texto publicado em uma rede social por Tom Jones Moreira, revisor técnico da Revista da SET, o executivo da Youcast afirma que em testes realizados antes da Copa do Mundo, em uma análise comparativa de latência Glass-to-Glass — ou seja, do momento em que a imagem é capturada até sua exibição na tela do telespectador — comparando três rotas distintas de distribuição: UHF Digital Terrestre, Satélite e Streaming OTT. “O resultado foi tão interessante quanto previsível para quem vive a engenharia de transmissão. Durante a monitoração de uma partida de futebol ao vivo, observamos simultaneamente três fontes: UHF Digital (ISDB-T) – 25min47s; Satélite (Feed de Distribuição) – 25min45s; e Streaming OTT – 25min36s”.
Moreira resume e afirma que “o sinal UHF chegou primeiro, o satélite apareceu 2 segundos depois, e o streaming ficou 11 segundos atrás do broadcast terrestre. Ou seja, quem estava assistindo pela antena UHF comemorou o gol antes de todos. Considerando uma taxa de 59,94 fps, os números ficam ainda mais impressionantes: UHF x Satélite = aproximadamente 120 quadros de diferença. Satélite x OTT = aproximadamente 539 quadros. UHF x OTT = aproximadamente 659 quadros. São quase 660 frames de atraso entre a televisão aberta e o streaming”.
Por Fernando Moura, em São Paulo

