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O nome do jogo é: entrega de conteúdo

Telas maiores para exibição de conteúdo, já não telas de TV

Durante toda sua história o substantivo televisão foi utilizado tanto para definir o aparelho quanto qualquer outra forma de distribuição de conteúdo para as massas, fora o cinema. Mas, com a Era do Streaming é preciso compreender o real significado da plataforma televisão

por Francisco Machado Filho

Transmissão por streaming de vídeo em redes sociais durante o SET EXPO, como parte do convênio Revista da SET/TV Unesp

Durante o Congresso SET Expo 2019, Raymundo Barros diretor de tecnologia da Globo apresentou o novo posicionamento da emissora para os próximos anos. A emissora carioca deixa de ser uma empresa produtora e distribuidora de conteúdo e passa a ser uma empresa de Tecnologia: Globo Media Tech. Com este novo posicionamento a empresa passa a ser ao mesmo tempo uma plataforma de entrega de conteúdo de um para muitos, pelo ar, e também se torna uma distribuidora de conteúdo de um para um, através de sua plataforma digital Globo Play.
Este tem sido o canto do cisne desde que Nicolas Negroponte, na última década do século passado, previu que no futuro a vida seria digital e a convergência tecnológica um caminho sem volta. Ou seja, aparenta ser natural para uma emissora de televisão compreender esforços para recuperar uma audiência que se acredita estar sendo perdida para as plataformas de distribuição de VOD/Streaming. Anos depois, Henry Jenkins avançou nesta questão e afirmou que a convergência não era tecnológica, ela se dá na mente das pessoas que buscam o conteúdo em várias plataformas. Nascia a Era Transmídia e a cultura do fã, mas os paradigmas estabelecidos por Negroponte já estavam enraizados, direcionando as estratégias das empresas de comunicação por todo mundo e, a indústria televisiva, vem sendo desafiada a se tornar aquilo que contraria suas características históricas e que poderá exigir uma total reformulação do sistema televisivo brasileiro.
Marshall McLuhan, já disse uma vez que “um novo meio nunca se soma a um velho, nem deixa o velho em paz. Ele nunca cessa de oprimir os velhos meios, até que encontre para eles novas configurações e posições”. Isto aconteceu quando o novo meio televisão, oprimiu o rádio e o fez encontrar novas configurações. Agora é o novo meio VOD/Streaming que está oprimindo a televisão e esta vem tentando encontrar suas novas configurações e posições. E como o novo meio oprime o antigo, vemos uma infinidade de modelos de entrega que se intitulam televisão: WebTV, IPTV, Apple TV, Google TV, e tantas outras. Mas estas plataformas de entrega não podem ser chamadas de televisão. É preciso desvincular o nome televisão para caracterizar as demais plataformas de distribuição de conteúdo. NetFlix não é televisão. Esta reflexão é muito importante, pois ela está diretamente ligada ao futuro da indústria televisiva, sua estrutura de rede de afiliadas  e a empresas que permeiam esta indústria como a empresas de serviços por satélite e agências de publicidade.
Então como primeiro passo para enfrentar este desafio é compreender que o que está em jogo no país não
é a entrega de conteúdo audiovisual em plataformas diferentes, mas integradoras, melhor dizendo, convergência é completamente diferente de integração. Se tivéssemos que associar o NetFlix a um meio antigo, relembrando McLuhan, seria a uma locadora de vídeos e não e uma emissora de TV.

Veja, no quadro abaixo, as características de cada plataforma.

TV Aberta Transmissão audiovisual por meio do espectro hertziano (pelo ar) com transmissão em fluxo (grade de programação), de um para muitos, simultaneamente, com audiência ilimitada e de forma gratuita, tendo seu custo de produção e distribuição pago por terceiros (anunciante).
TV Pública e/ou Educativa Transmissão audiovisual por meio do espectro hertziano (pelo ar) com transmissão em fluxo (grade de programação, de um para muitos, simultaneamente, com audiência ilimitada e de forma gratuita, tendo seu custo de produção e distribuição pago pelas esferas do poder público ou por universidades, entidades e associações).
TV Paga Transmissão audiovisual por meio de cabos (fibra ótica) com transmissão em fluxo (grade de programação), de um para muitos, simultaneamente, com audiência limitada, por meio de planos de assinatura junto a uma operadora, tendo seu custo de produção e distribuição pago pelos assinantes e por terceiros (anunciante).
VOD Entrega de conteúdo audiovisual por meio da rede mundial de computadores, com entrega por demanda, de um para um, assíncrono, com audiência limitada e tendo seu custo de produção e distribuição pago por meio da assinaturas dos serviços (NetFlix) ou gratuitamente (YouTube).
Pode parecer pouco o que difere uma plataforma da outra, mas é isso que impõe as regras do modelo de negócios de cada uma delas. Por a TV aberta ser gratuita e generalista, ela sempre terá que oferecer uma programação heterogênea e baseada nos hábitos e horários da audiência. Esta configuração da indústria televisiva é determinada pelo seu modelo de negócios. As empresas de VOD não estão amarradas a rigidez da grade de programação nem a necessidade dos intervalos comerciais e podem planejar seus custos dentro de orçamentos mais fechados, ou seja, cada plataforma tem sua estratégia para vencer no jogo “entrega de conteúdo”. Em uma alusão simples, podemos fazer uma relação com o jogo de futebol. Temos o futebol de campo e o futebol de salão. Cada um com suas regras e estratégias para vencer o jogo. Não podemos misturar os dois. Se fizermos isto teremos um novo jogo. Então não podemos convergir as plataformas abertas e por demandas, por sua natureza elas não são convergentes, mas podem ser integradoras. A integração quer dizer que a plataforma mais robusta aproveita das oportunidades do novo meio, mas não se abre mão da sua base econômica mais rentável. Convergir e tentar atuar simultaneamente pode acarretar comprometimentos financeiros irreparáveis, e mais, comprometer a estrutura de rede com as afiliadas, tirando delas o espectador de seus programas locais ou ofertando publicidade direcionada sem repasses. E como ficam as agências de publicidade das cidades do interior? Como disse um moderador em uma das sessões do congresso: “quando se juntam dois presépios, não há vacas, reis magos e nem Jesus menino para os dois”.

Plataformas de streaming de vídeo avançam no mundo e transmissões por LTE são cada dia mais comuns no mercado audiovisual

Outra questão relevante que temos que pensar, e por isso o “canto do cisne” como referido acima, é que de todas essas plataformas, a televisão é a única que pode se tornar qualquer outra delas. Uma emissora generalista pode ser aberta, paga, VOD e Streaming, mas nenhuma delas pode ser televisão, pois antes de tudo precisam de uma concessão pública. Será que um dia iremos ver uma grande plataforma de VOD/Streaming preocupada com espaço no espectro? Com melhores antenas e transmissores? Pouco provável. Por isso, as emissoras de TV devem ter muito cuidado em abraçar as promessas de um futuro convergente. Isto pode ser apenas uma ilusão ou estratégia para que a emissoras abertas venham lutar em um campo de batalha que não é o delas. Se o jovem hoje não assiste mais a televisão não é porque ele tem internet. É porque a grade de programação não é mais relevante para ele. Se o conteúdo for relevante, há audiência.
Por fim, a TV aberta não é apenas uma plataforma de entrega de conteúdo. Ela é uma plataforma de concretização da Democracia em nossa sociedade. Dominique Wolton, em seu livro ‘Internet, e depois?’, afirma que a televisão não pode ser pensada de forma a competir com as demais plataformas, pois a televisão é um veículo generalista e deve continuar a ser e que não pode existir uma sociedade democrática sem uma TV generalista. Para ele, a força da televisão reside no seu papel de decodificar o mundo para as grandes massas. Reconhece que a estrutura das mídias do século XX está inserida na lógica da maioria e na sociedade de consumo, mas também afirma que nenhuma outra mídia teve tamanho sucesso de adesão. Afirma inclusive que seu sucesso é “imenso, real e duradouro” […] “A televisão é o principal espelho da sociedade: é essencial para a coesão social que os componentes sociais e culturais da sociedade possam se ver e se referenciar na principal mídia.” E Wolton complementa que a televisão é um vínculo indispensável em uma sociedade que frequentemente os indivíduos estão isolados e fragmentados sendo que somente a TV generalista tem a capacidade de aglutinar essa audiência cada vez mais fragmentada em casos de comoção nacional. De acordo com o pesquisador francês é nesse cenário que a televisão generalista deveria se consolidar. Não podemos de forma alguma, achar que o caminho natural da televisão é a rede mundial de computadores, ou o 5G. Se isto vier a se concretizar em um futuro próximo, estaremos de fato, desprotegidos e então, teremos que mudar o nome do jogo.

Prof. Dr. Francisco Machado Filho é jornalista e Professor Doutor do curso de Jornalismo e Rádio e TV da Unesp/Bauru, e diretor da TV UNESP.
Contato: [email protected]