Consumo digital desafia a sustentabilidade global
Painel do SET Expo 2025 discute os impactos crescentes do setor de mídia e tecnologia sobre a matriz energética
Dando continuidade a programação matinal do terceiro dia de SET Expo 2025, especialistas em energia, tecnologia e sustentabilidade debateram os impactos do consumo digital sobre os sistemas elétricos e os desafios da transição energética em um cenário de demanda crescente. O painel “Do Estúdio ao Data Center: o Desafio da Energia e da Sustentabilidade” mostrou como a sofisticação na produção, distribuição e consumo de conteúdo — impulsionada por inteligência artificial, computação em nuvem, internet das coisas e TV 3.0 — pressiona a infraestrutura energética global e exige respostas imediatas.
O encontro contou com a moderação de Ricardo Esturaro, especialista em marketing, estratégia e sustentabilidade, escritor e conselheiro da SET, e com as participações de Manoel Lisboa, diretor de negócios da Tangho Green Holding e CEO da Citymining; Roberta Cipoloni Tiso, diretora de sustentabilidade e comunicação para a América Latina na Green4T; e Bárbara Rubim, vice-presidente de geração distribuída da ABSOLAR e CEO da Bright Strategies.
Apesar de o Brasil ter uma matriz elétrica composta por mais de 80% de fontes renováveis, a posição de conforto pode ser ilusória. Para Roberta Cipoloni Tiso, da Green4T, “temos uma das matrizes mais limpas do mundo, mas isso nos acomoda. Precisamos liderar a transição, ainda mais com a COP30 sendo sediada aqui”. A crise climática global escancara o paradoxo: o aquecimento intensifica a demanda por eletricidade, enquanto parte significativa da energia mundial ainda vem de fontes fósseis.
Bárbara Rubim, da ABSOLAR, apontou que o avanço da energia solar no país, especialmente por meio da geração distribuída — que já ultrapassa 41 GW, mais que o dobro do previsto pelo governo —, representa uma mudança profunda no setor. “É uma revolução de baixo para cima. Mas estamos gerando energia em momentos em que o sistema não precisa, o que mostra a falta de coordenação entre crescimento e planejamento.”
O painel também evidenciou que o digital não é imaterial. Cada clique, reunião online ou streaming tem impacto energético concreto. O vídeo de “Despacito”, por exemplo, teve tantos views na internet que consumiu energia suficiente para abastecer 22 mil casas no Brasil. “Estamos consumindo como se a energia fosse de graça, mas há custos invisíveis — ambientais, sociais e sistêmicos”, alertou Rubim. Com o crescimento acelerado do uso de dados e inteligência artificial, o sistema elétrico enfrenta gargalos que só serão superados com investimentos em redes inteligentes, armazenamento e eficiência energética. Sem isso, o setor continuará vulnerável, e a tão necessária transição para uma matriz limpa e resiliente seguirá em risco.